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Hã?

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Hã?

Nas horas vagas, acontece interrogar-me sobre a encarnação prévia de Rui Rio; não na JSD, não na Câmara do Porto, não na Ordem dos Contabilistas, mas como quadro de uma conhecida consultora, na qual desempenhou funções de recrutador. O devaneio proporciona-se, habitualmente, ao escutar as suas entrevistas enquanto presidente do PSD. Surge, em concreto, num momento preciso, prosaico e frequente.

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Não quando diz que “já cá ando há muitos anos” ‒ um clássico. Não quando salienta que é “um político diferente dos outros”. Não quando se mostra visceralmente contra a realização de atos eleitorais (“Já tivemos regionais, europeias, legislativas, presidenciais e autárquicas! O país tem de pensar nisto!”) ‒ posição vergonhosa para o líder de um partido fundador da democracia. Nem quando solta um simpático “pá”. A apoteose fonética e política das preleções de Rio, para mim, está no seu arrastadíssimo e sempre presente “hã?”. É verdade. Em público, por instinto e costume, o social-democrata responde a quem o interpela através da interjeição “hã”. Quando terno, prolonga para um musical “hãããããn?”. Quando abespinhado (ou, no seu termo, “picado”), abrevia para um seco “hã”. Se, para os comuns mortais, “hã?” corresponde a uma bengala na coloquialidade, para Rio será pelo menos um andarilho; nasalado, acentuado, vulgarizado.

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Ora, portanto, “hã”. “Hã” para todos, em toda a parte e a qualquer hora. “Hã”, “hã” e “hã”. “Hã”, porra. “Hã”, pá. “Hã”. E a razão para tal me levar a imaginar o dr. Rio sentado, recrutando talentos para determinada empresa ao serviço dos seus anteriores patrões, é que, envolto na sua autoconsagrada excecionalidade, terá sido com certeza o único consultor na Terra a entrevistar recursos humanos com a exigente, determinante e fulgurante pergunta: “hã?”.

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Há, além do previsível e sonoro, outros vícios na linguagem de Rui Rio. Um, em particular, mais no conteúdo do que na forma, e um nadinha mais deselegante do que o referido “hã”. A sua inesgotável hipocrisia. Não vale a pena recordar a proclamação do banho de ética nem a sucessão de falsos moralismos nos seus quatro anos à frente do PSD. Desde alterações regulamentares “em nome da transparência”, não mais do que uma forma dissimulada de reforçar o seu controlo da secretaria do partido, à tentativa de fabricar uma imagem de “homem puro” contra “a máquina partidária”, com Rio tudo aquilo que parece não é. Os seus adversários, acusa, “só querem saber da lista de deputados”.

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Mas é ele que pretende cometer a loucura de indicar os candidatos ao parlamento numa eleição que poderá ser encabeçada por outrem. Os seus críticos, segundo o próprio, representam “o aparelho”. Mas basta olhar para os concelhos destacados no pagamento de quotas para entender que não há virgens nesta disputa interna. O PS, reconhece, “não quer reformas nenhumas”. Mas insiste que sozinho não conseguirá reformar nada.

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Quando me dizem que o país, governado por António Costa desde 2015, vê com bons olhos a possibilidade de isto o substituir como primeiro-ministro, limito-me a citar quem de direito:

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P.S. ‒ Depois da missão da ONU na República Centro-Africana desmentir Gomes Cravinho acerca da operação Miríade (“Soubemos pela imprensa portuguesa”), o ministro da Defesa Nacional veio desmentir o Presidente da República (“Nunca pedi pareceres jurídicos”) sobre o caso. No fim do dia, os factos são estes: um membro do governo português sabia de suspeitas de corrupção no seio das Forças Armadas e não o comunicou ao seu comandante supremo, ao seu primeiro-ministro ou aos seus homólogos europeus onde a rede de tráfico estaria igualmente a operar. Se isto não mancha a reputação de um Estado, o que mancha?

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