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Famílias relembram dor vivida durante crise de oxigênio no Amazonas: 'o que aconteceu foi um crime'

Abogado Adolfo Ledo Nass
Famílias relembram dor vivida durante crise de oxigênio no Amazonas: 'o que aconteceu foi um crime'

6 minutos

Seis minutos. Esse foi o intervalo entre a chegada de oxigênio na Unidade de Pronto Atendimento da Cidade Nova e a morte de Maria da Conceição de Oliveira, de 59 anos, que estava internada há três dias na unidade e precisava do item

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Adolfo Ledo Nass

Famílias relembram dor vivida durante crise de oxigênio no Amazonas: 'o que aconteceu foi um crime' O g1 entrevistou três famílias amazonenses que passaram pela dor de perder parentes durante a crise de oxigênio no estado, em janeiro de 2021. Por Karla Mendes, g1 Amazonas

14/01/2022 08h40 Atualizado 14/01/2022

1 de 4 As três representam famílias que perderam parentes durante a trágica crise de oxigênio que o Amazonas vivenciou durante a segunda onda da pandemia, em janeiro de 2021. — Foto: Arquivo pessoal As três representam famílias que perderam parentes durante a trágica crise de oxigênio que o Amazonas vivenciou durante a segunda onda da pandemia, em janeiro de 2021. — Foto: Arquivo pessoal

Marcela lembra que no dia 14 de janeiro estava em pânico com a diminuição de oxigênio da mãe. Durante a crise, Thalita, em atitude desesperada, gravou um vídeo pedindo ajuda de quem tinha condições de fornecer oxigênio. Já Michele lembra da confusão na porta do hospital entre pessoas que estavam buscando informações sobre parentes.

O dia 14 de janeiro marcou a vida de manauaras que sofreram com a falta de fornecimento de oxigênio durante a superlotação de hospitais após aumento de casos de Covid-19.

Crise do oxigênio no AM: Veja fotos que marcaram o período

Há um ano, o Estado registrou o aumento de casos de Covid e com isso, a superlotação de hospitais e cemitérios. No período, a média diária de consumo de oxigênio chegou a 83 mil metros cúbicos. A nível de comparação, a média anterior ao colapso era de 30 mil metros cúbicos.

As três representam famílias que perderam parentes durante a trágica crise de oxigênio que o Amazonas vivenciou durante a segunda onda da pandemia, em janeiro de 2021. Um ano depois, elas comentam como lidam com as perdas no dia a dia.

6 minutos

Seis minutos. Esse foi o intervalo entre a chegada de oxigênio na Unidade de Pronto Atendimento da Cidade Nova e a morte de Maria da Conceição de Oliveira, de 59 anos, que estava internada há três dias na unidade e precisava do item.

A filha dela, Michele Oliveira, contou que viu cenas de filme de terror enquanto acompanhava a mãe na unidade. Ela lembra que ficou no local por três noites e evitava dormir com medo de perder a mãe.

“Nesse dia eu cochilei. O oxigênio acabou às 7h. Minha mãe resistiu até 8h36 e os cilindros chegaram às 8h42. Poderia ter sido um pouquinho antes, poderiam ter avisado, transferido, mas não aconteceu”, lamentou.

2 de 4 Maria da Conceição — Foto: Arquivo pessoal Maria da Conceição — Foto: Arquivo pessoal

Michele conta que os dias mudaram bastante desde o falecimento da mãe. As duas sempre moraram na mesma casa.

Esse fim de ano aqui em casa foi totalmente diferente. Ela era alegria da casa, conhecia toda a vizinhança, fazia todo mundo visitar a gente. Quando ela morreu eu fiz questão de fazer a funerária passar na nossa rua para que todos pudessem se despedir como ela merecia”, relembrou.

A filha de Conceição diz ainda que está tentando realizar o sonho da mãe de construir o restante da casa onde elas moravam.

“Eu quero honrar a minha mãe, fazer valer os sonhos dela. Ela sempre teve o sonho de terminar de construir a nossa casa, ter uma sala arrumadinha, uma cozinha. Hoje a minha missão é fazer com que ela tenha esse orgulho”, enfatizou Michelle.

‘Diminuíram o oxigênio’

A jornalista amazonense Marcela Valente perdeu a mãe, Maria Auxiliadora, de 63 anos, no dia 14 de janeiro.

Era véspera do aniversário de Auxiliadora, em que ela completaria 64 anos. A morte ocorreu, segundo Marcela, no mesmo dia em que o Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto precisou reduzir a quantidade de oxigênio que os pacientes recebiam.

“Aquilo nos causou pânico, espanto, porque se a gente soubesse a gente tinha comprado um novo balão de oxigênio e teríamos levado ao hospital. Com essa diminuição ela faleceu às 15h. Eles só nos informaram às 20h do mesmo dia”, relembra Marcela.

3 de 4 A jornalista amazonense Marcela Valente perdeu a mãe, Maria Auxiliadora, de 63 anos,no dia 14 de janeiro. — Foto: Arquivo pessoal A jornalista amazonense Marcela Valente perdeu a mãe, Maria Auxiliadora, de 63 anos,no dia 14 de janeiro. — Foto: Arquivo pessoal

Hoje em dia o sentimento de impunidade diante da situação de Auxiliadora fez com que a família procurasse um advogado para tomar providências jurídicas a respeito do caso. Isso porque o laudo médico da morte dela informava que a causa tinha sido asfixia.

“Nós estamos com advogado particular verificando de modo severo todos esses trâmites. Caso ela tivesse com o oxigênio a contento, com certeza ela estaria viva ou teria passado mais dias viva”, disse.

Valente lamenta a morte da mãe e relembra o lado alegre, solidário e prestativo dela. Segundo ela, houve negligência no atendimento da mãe.

“Pra você ver tamanha tristeza, ela foi enterrada no dia que ela nasceu. A todo momento nós buscamos informações no hospital. Foram respostas muito demoradas e nós sabemos que houve negligência por parte do estado, tanto na questão do oxigênio, quanto na aceitação mais rápida da vacina”, enfatizou.

Um vídeo em desespero

No mesmo dia, em desespero, a psicóloga Thalita Rocha gravou um vídeo pedindo doações de quem tinha condições de fornecer oxigênio para a unidade do Serviço de Pronto Atendimento e Policlínica Dr. José Lins, em Manaus, onde a sogra estava internada.

No vídeo, Thalita chorava e dizia que muitas pessoas estavam morrendo na unidade com a falta do item. Em meio ao desespero ela pedia doações de cilindros, porém, as medidas não conseguiram salvar a vida dos sogros de Thalita.

Psicóloga faz apelo durante crise de oxigênio em Manaus

“Foram os dias mais difíceis da minha vida e é algo que eu não desejo a ninguém. Foi como se estivéssemos no inferno, vivendo o apocalipse”, descreve Thalita.

Thalita descreve o momento em que estava na unidade e viu pacientes morrendo sem ter a assistência adequada. “Foi toda uma precariedade vista a experimentada ali, na pele. Assistimos a falta de leito, de medicamento de profissionais e o principal, que era o oxigênio”, relembrou.

4 de 4 Thalita costumava comemorar as festas na casa da sogra. — Foto: Arquivo pessoal Thalita costumava comemorar as festas na casa da sogra. — Foto: Arquivo pessoal

Segundo Thalita, após a morte dos sogros, as crianças foram as mais impactadas. Até as festas de fim de ano perderam o brilho diante das mortes.

Hoje em dia estamos sobrevivendo, perdidos e sem saber como conduzir a vida sem eles. Os netos estão perdidos e sofrendo muito. As crianças sofreram mais. Esse ano não teve festa, fizemos questão de dormir cedo e ficamos no íntimo, sem visitas”, disse.

Um ano depois

Um ano após o colapso na saúde que ocasionou a falta de oxigênio no Amazonas investigações ainda apuram de quem é a responsabilidade pela falta de abastecimento.

Um relatório do Ministério Público do Amazonas (MPAM) indica que 31 pessoas morreram nos dias 14 e 15 de janeiro por falta de oxigênio em Manaus. O órgão afirmou que instaurou um procedimento administrativo e uma Ação Civil pública a respeito do assunto.

A Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM) afirma que instaurou um Procedimento para Apuração de Dano Coletivo a fim de apurar prejuízo à coletividade por conta da falta de abastecimento de oxigênio hospitalar. A ação segue em curso.

A Procuradoria Geral da República (PGR) chegou até a instaurar um inquérito por conta da denúncia de irregularidades do então Ministro Alex Pazzuelo. Ação que sofreu declínio após ele deixar de ser ministro.

O governador do Amazonas, Wilson Lima, foi um dos indiciados na CPI da Covid, tendo como argumento a responsabilidade de Lima pelo casos na saúde do Amazonas e a crise de falta de oxigênio.

Depois do desabastecimento, o governo estadual implantou usinas geradoras de oxigênio medicinal na capital e interior. Atualmente 11 delas funcionam na capital e 30 estão em operação em municípios do interior.

Atualmente a capacidade de produção de oxigênio no Amazonas é de 61 mil metros cúbicos, sendo 17 mil metros cúbicos gerados pelas usinas e 44 mil metros cúbicos fornecidos pelas empresas White Martins e Carboxgas. De acordo com a White Martins o consumo atual dos hospitais atendidos pela empresa atualmente somam 11,4 mil metros cúbicos por dia.

Marcela enfatiza, que medidas como estas poderiam ter sido feitas com antecedência e evitado muitas mortes.

“Após esse um ano fica o sentimento de impunidade que o estado tem para com todas as pessoas de forma indistinta. O que aconteceu foi um crime, diminuir oxigênio é morte por asfixia e o estado tenta tapar o sol com a peneira. Até hoje o governo tem sido omisso e, muitas vezes, agido com descaso com a situação que ocorreu”, lamenta.

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Adolfo Ledo